Recapitulando…
Na semana passada, falamos sobre a felicidade no trabalho estar na moda e se isso é positivo ou negativo. Lembramos que a felicidade é uma emoção e, portanto, passageira; mas que devemos adotar estratégias para sermos mais felizes ao trabalhar, como por exemplo criar espaço na agenda para atividades motivadoras e significativas.
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Gente feliz tem mais criatividade
De hoje até o final do mês – como adesão ao movimento Setembro Amarelo – trarei aqui nesse espaço lições valiosas sobre felicidade trazidas por grandes filósofos da história da humanidade, começando hoje pelos clássicos gregos Sócrates, Platão e Aristóteles.

Sócrates, o grande filósofo grego que viveu no séc. V a.C., estabeleceu uma relação entre felicidade e ética. Para ele, a compreensão de felicidade não podia se restringir à satisfação dos desejos e necessidades do corpo, pois o homem não era só matéria física mas principalmente alma.
Assim, a felicidade era um atributo da alma conquistado por uma conduta virtuosa e justa. Segundo ele, as pessoas eram felizes à medida em que viviam de forma correta, reflexiva e consciente. Por isso, afirmou que era melhor ser virtuoso e sofrer uma injustiça do que praticá-la.

Essa noção de felicidade como bem supremo da alma continua com seu discípulo Platão (séc V a.C.) que atribuía a ela a função de ser justa e virtuosa, assim como o olho serve para ver e o ouvido para ouvir. Quem vivia exercendo essa função da alma era feliz.
Esse conceito de justiça e virtuosidade faz parte da ética grega, que se pautava bastante na separação entre o bom e o mau. Platão, inclusive, estende essa questão ética ao Estado que, segundo ele, tinha a função de tornar os homens bons e felizes.

Essa relação de felicidade e ética está presente também em Aristóteles (séc. IV a.C.). Para ele, o que conduzia as pessoas à felicidade eram as ações virtuosas. Mas ele foi mais além e apontou um caminho ainda mais específico.
Aristóteles falava que a felicidade estava no meio termo. Os vícios estavam nos extremos de excesso ou falta, e as virtudes, no meio. Bora analisar um exemplo para entender melhor?
Pense na coragem como uma virtude. Na ótica aristotélica, em um extremo está a falta de coragem – a covardia – que não conduz à felicidade na medida em que nos paralisa. No outro extremo está o excesso de coragem – a bravura – que também não nos leva à felicidade pois nos coloca constantemente em risco. A coragem, por sua vez, está no meio termo e nos permite agir sem nos colocar em perigo; portanto, nos guia à uma vida feliz.
Esse pensamento aristotélico está em uma carta íntima que o filósofo escreveu a seu filho, apontando os caminhos para conquistar a felicidade. Essa carta se transformou no livro Ética a Nicômaco. Nele, Aristóteles afirma que a felicidade é o fim da natureza humana; em outras palavras, vivemos para alcançá-la.
O filósofo grego classifica a felicidade como atividade necessária e desejável em si mesma; ou seja, que não visa um outro fim. Ela é o fim. Por isso, ele afirma que “à felicidade nada falta, ela é auto-suficiente”. Olha que potente pensar nessa ideia de que quando estamos felizes, nada nos falta.
Como bem disse Thomas Hardy, poeta e novelista inglês do séc XIX: “A felicidade não depende do que nos falta, mas do bom uso do que temos”.

A ideia dessa série de artigos é provocar reflexão em relação à felicidade, seja no trabalho ou na vida, para que a gente possa escolher de forma consciente como, onde e por que investir tempo e esforço. Então, não vai ter receita de bolo, tá? Aliás, eu nem acredito que dá para ter uma rota para ser feliz que funcione da mesma forma para todo mundo.
Mas dá para fazer um exercício sobre a nossa felicidade seguindo o pensamento dos gregos clássicos. Avalie se tem alguma coisa que você faz com muita frequência que contraria seus princípios e valores. Se você encontrar algo, experimente reduzir ou eliminar isso da sua rotina. Se você se sentir mais feliz, ponto para os gregos.
Outra questão prática é observar se você não está se excedendo em alguma qualidade ou dificuldade. Por exemplo: você ajuda tanto as outras pessoas que não respeita o tempo e a dor do outro? Ou tem tanta pró-atividade que atropela os colegas? Se sente só na posição de vítima ou de herói/ heroína em relação a alguém? E por aí vai… Afinal, a reflexão é sua e não minha.
Seguindo a lógica aristotélica, vale lembrar que se você está vivendo em um momento de extrema alegria ou tristeza, convém deixar esses exercícios para outra ocasião.
Espero que você tenha gostado do artigo e que esteja aqui na próxima semana para mais pensamentos filosóficos sobre felicidade.
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… um livro: Ética a Nicômaco, seleção de textos de José Américo Motta Pessanha. 4. ed. São Paulo : Nova Cultural, 1991. — (Os pensadores ; v. 2)
… uma música: Maria, Maria – Milton Nascimento. Repara nessa parte da letra e me diz se isso não é muito aristotélico?
Maria, Maria, é o som, é a cor, é o suor
É a dose mais forte e lenta
De uma gente que ri quando deve chorar
E não vive, apenas aguenta
… um filme: Procurando Nemo, da Pixar. Aqui a associação não é minha, é de Francisco Razzo, professor de filosofia que escreveu uma análise para A Gazeta do Povo, argumentando que a jornada de Marlin e Nemo, e os desafios que enfrentam, são uma representação da busca pela coragem, pela moderação (a “justa medida”) e pelo autoconhecimento, elementos centrais da ética de Aristóteles.
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ARISTOTELES. Ética a Nicômaco, seleção de textos de José Américo Motta Pessanha. 4. ed. São Paulo : Nova Cultural, 1991. — (Os pensadores ; v. 2)
Scuola di Atente (Escola de Atenas em português) é uma das pinturas mais famosas do renascentista italiano Rafael Sanzio. A obra tem largas dimensões (5m x 7,7m), foi produzida entre 1509 e 1511 por encomenda do Vaticano e lá se encontra, na Stanza della Segnatura. Trata-se de uma homenagem aos pensadores clássicos e à filosofia.
Quem está com a curiosidade aguçada para saber onde estão os filósofos mencionados neste artigo, volte na imagem e repare bem ao centro. Platão está de túnica vermelha apontando para o céu, simbolizando seu célebre mundo das idéias. Aristóteles está de túnica azul ao seu lado com a palma da mão voltada para baixo, indicando o mundo concreto. Sócrates está à esquerda, de túnica ocre, conversando com seus discípulos, que era sua forma de transmissão de conhecimento.
Se você quer saber mais sobre a obra de arte e identificar outros filósofos como Epicuro, Pitágoras e Diógenes (inspiração do personagem Chaves), acesse o link: https://www.culturagenial.com/a-escola-de-atenas-de-rafael-sanzio/
Desde 2014, a Associação Brasileira de Psiquiatria – ABP – em parceria com o Conselho Federal de Medicina – CFM – promove a campanha Setembro Amarelo de prevenção ao suicídio, uma triste realidade em todo mundo. De acordo com a última pesquisa realizada pela Organização Mundial da Saúde – OMS – , em 2019, foram registrados mais de 700 mil suicídios em todo o mundo (sem contar com os episódios subnotificados que elevariam esse índice para cerca de 1 milhão de casos). No Brasil, são registrados 14 mil casos por ano, o que corresponde a 38 pessoas morrendo por suicídio diariamente.
Muito prazer, eu sou a Maris Harada, criadora do blog um novo jeito de pensar e fundadora da maris cocriação estratégica. Sou jornalista, advogada, publicitária e um pouco filósofa. Atuo como cocriadora estratégica e ofereço um novo jeito de pensar para pessoas e negócios.
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