Quando um cliente me procura para estimular a criatividade na sua empresa, a primeira coisa que eu digo é: identifique as gaiolas de desempenho da sua equipe e ajude-a a cair fora delas.
Em nome de mais performance, mais dinheiro, mais metas batidas (ou abatidas), trabalhamos de forma obstinada dia após dia. E, sem percebermos, colocamos um cabresto em nossos próprios olhos, seguindo adiante, sempre no mesmo caminho.
O problema é que o mesmo caminho leva sempre para o mesmo lugar.
O “sujeito do desempenho” – como o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han chama os trabalhadores do séc XXI – explora a si mesmo, deliberadamente, mesmo sem força coercitiva externa.
Esse paradoxo de liberdade já havia sido observado por Etienne de la Boétie em seu Discurso sobre a Servidão Voluntária, escrito em 1548 quando ele tinha 18 anos. Tratava-se de uma crítica à legitimidade dos governantes da época – “tiranos” como ele se referia.
Para ele, o ser humano torna-se servo quando abdica ou se recusa a lutar pela liberdade, contra a dominação e a opressão. Por isso, a aparente contradição do título, que combina as palavras servidão e vontade.
Agora faça uma pausa, respire e se concentre. Antes de ler o trecho que transcrevo a seguir, pense em como foi sua última semana de trabalho. Qualquer semelhança será mera coincidência.
Atrair o pássaro com o apito ou o peixe com a isca do anzol é mais difícil que atrair o povo para a servidão, pois basta passar-lhes junto à boca um engodo insignificante.
É espantoso como eles se deixam levar pelas cócegas.
Os teatros, os jogos, as farsas, os espetáculos, as feras exóticas, as medalhas, os quadros e outras bugigangas eram para os povos antigos engodos da servidão, preço da liberdade, instrumentos da tirania.
Deste meio, desta prática, destes engodos se serviam os tiranos para manterem os antigos súditos sob o jugo. Os povos, assim ludibriados, achavam bonitos estes passatempos, divertiam-se com o vão prazer que lhes passava diante dos olhos e habituavam-se a servir com simplicidade igual, se bem que mais nociva, à das crianças que aprendem a ler atraídas pelas figuras coloridas dos livros iluminados. (BOÉTIE, 1548).
Esse discurso cabe perfeitamente em nosso contexto atual de trabalho, o que muda são os engodos e os tiranos. Se antes, na Grécia antiga, as pessoas se encantavam pelo teatro, pelos jogos e pelas lutas, agora elas são seduzidas pelas possibilidades de riqueza, pela promessa de promoção, pelo trabalho “flexível”, pela fórmula de sucesso da vez, pelo curso imperdível, pelo like no post…
E assim continuamos perseguindo o inatingível como sujeitos de desempenho como se fossemos as crianças de la Boétie querendo ver na vida real as figuras coloridas dos seus livros encantados.

Um dos pressupostos da criatividade é ter tempo e espaço para experimentar. Imaginar e praticar, sucessivamente, por quantas horas, dias e semanas for necessário.
Eu faço tricô e nunca corto um novelo de lã emaranhado. Isso porque desfazer esses nós me ajuda a ter resiliência para criar coisas diferentes no meu trabalho. A tarefa é similar, sabia?
Quando eu olho para um novelo de lã emaranhado não sei bem por onde começar. Só vejo um monte de nós misturados e confusos. Um processo criativo também é assim: um emaranhado de dados, informações, referências, etc.
No novelo, primeiro eu procuro uma ponta solta e vou afrouxando os nós ao seu redor para tentar “libertá-la”. Normalmente não dá certo. E eu tenho que ir afrouxando outras partes primeiro. E depois de muito experimentar soltar de um lado e de outro, o que era uma confusão vai ficando mais claro. De repente, é possível enxergar um caminho para recuperar o novelo inteiro.
Exercitar a criatividade é a mesma coisa. Primeiro você tem a inspiração de escolher uma informação, um dado, uma referência ou uma intersecção entre tudo isso. Daí você vai dando linha, vai alimentando a curiosidade e vai experimentando onde isso vai dar. Pode ser que você dê voltas. Pode ser que vá dar um passeio em Nárnia. Mas garanto que você volta. E volta com uma mala repleta de ideias. Uma vez que você conseguir enxergar o caminho, é só caminhar.
Agora, se eu estivesse muito preocupada com a performance, com a peça de tricô que preciso terminar, certamente teria cortado a linha ou comprado outro novelo. E no trabalho também não é assim?
Lembre-se: A cultura do desempenho está matando a criatividade. Liberte-se! Pelo menos de vez em quando…
Espero que você tenha curtido a metáfora do novelo e que possa aproveitar o feriado para exercitar sua criatividade.
Até a próxima! 😊
Bjo, Maris
Referência:
BOÉTIE, Etienne de la. Discurso Sobre a Servidão Voluntária (1549), p. 36. Versão para eBookL ibris: eBooksBrasil, 2006. E-book. Acesso em: 05 jul. 2022
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Que tal fazer o que você faz todas as semanas de uma maneira diferente?
Minha proposta para você é exercitar a sua criatividade a partir de uma tarefa rotineira.
Escolha algo que você faz todos os dias ou todas as semanas da mesma forma. Pode ser uma atividade do seu trabalho ou da sua vida.
Pergunte-se: como posso fazer isso de uma forma diferente?
Escreva num papel tudo que vier à sua mente.
Depois olhe para esse “emaranhado” de anotações, vai dando linha, desfazendo os nós e encontre um novo caminho.
Caminhe por ele e no término da sua experiência avalie o que foi melhor e o que foi pior nesse seu novo jeito de fazer a mesma coisa.
Precisa de ajuda para ter mais criatividade?
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… um livro: Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez. Parece um emaranhado de gente com o mesmo nome. Dica: faça a árvore genealógica desde o começo da leitura.
… uma série: Corpos, de Paul Tomalin. Minissérie britânica disponível na Netflix. São quatro detetives em quatro diferentes épocas e um só corpo. Vai pra frente, vai pra trás até os nós se desatarem e o mistério ser resolvido.
… um perfil: @vellosogg desvenda o que os atletas falam em campo, nas quadras e nas pistas, pela leitura labial.
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Muito prazer, eu sou a Maris Harada, criadora do blog um novo jeito de pensar e fundadora da maris cocriação estratégica. Sou jornalista, advogada, publicitária e um pouco filósofa. Atuo como cocriadora estratégica e ofereço um novo jeito de pensar para pessoas e negócios.
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